terça-feira, 15 de janeiro de 2013

De alma triste mas de coração quente

Acordo e depois de sentir a mais velha acordada e com as cordas vocais no seu máximo, o segundo pensamento é o de olhar para o berço. O berço que ontem já tirámos do quarto, bem como, tudo o que era da Leonor.

"Tem de ser como arrancar um penso rápido", repeti vezes sem conta. A dor é grande, o vazio nem tanto. Sinto-a comigo. Só tenho de me habituar a não a ter aqui nos meus braços, a não ver o seu sorriso quando lhe soprava nas bochechas e lhe fazia bilu-bilu (isto mesmo! Ela adorava).

A casa está mais vazia, mas a J. assumiu a "responsabilidade" de a encher. Ainda há pouco pediu que nos juntássemos em família para um abraço. Ritual há muito instituido ainda antes do nascimento da Leonor. E quando estávamos assim disse: " Eu gosto muito de vocês".
As lágrimas não sairam porque o calor no coração foi maior. Gigante. Sem medida possível de quantificar.
A mais pequena, supostamente mais ingénua é a mais "madura" desta situação. A ligação inexplicável que tinha e tem com a Leonor e que vem de mesmo antes da minha pirralhinha estar na minha barriga, fá-la ajudar-nos a ultrapassar este momento.

Estou atenta aos sinais: a Joana chamou-lhe estrela do amor e o primo chamou-lhe anjo do amor. Não me restam dúvidas de que tive o privilégio de dar corpo e vida a uma alma bem especial. Que nos marcou e nos marcará sempre.

Quem me conhece bem sabe que acredito que nada acontece por acaso. A morte da Leonor não foi por acaso. Ela quis que assim fosse, quando já ninguém esperava que isto aconteceria. Nem os médicos. Ela quis que eu lá não estivesse pois decidiu partir depois de eu sair, depois de me certificar que ela estava mais serena.

No hospital de Santa Maria uma enfermeira muito especial disse-me que quando as crianças não querem viver, de nada vale fazerem o que for. A Leonor em Santa Maria lutou e ficou aqui. Em Santa Cruz decidiu que era a sua hora, mesmo tendo os médicos feito tudo o que podiam. Nunca vou esquecer a cara de todos. A frustração de tentar salvar um bebé e ter de o ver partir.

Mas para mim só o corpo foi. A Leonor está e estará sempre viva dentro de nós. Um dia será ela a guiar-me para onde irei, quando chegar a minha vez. Quando a minha missão estiver cumprida, tal como a dela se cumpriu neste meses.

As suas cinzas voaram ao sol e sob a brisa do guincho no local onde eu e o pai há 8 anos celebrámos o nosso amor. Com altos e baixos lutámos e ultrapassámos todas as barreiras, valendo-nos do amor que sentimos e que fomos fortalecendo. Com o nascimento das nossas filhas e com a morte da nossa Leonor.

Com a minha pirralhinha ao colo prometi-lhe dar sentido ao que aconteceu. Pedi-lhe força e clarividência para perceber o que tenho de fazer para continuar esta missão que ela veio cumprir. Peço a Deus e ao Universo que me iluminem e me ajudem nesta caminhada.

O meu irmão, seu padrinho, há uma semana comprou-lhe em Inglaterra para trazer, uma boneca da Brave e foi uma das coisas que ela levou consigo. Com a roupa que a tia tinha comprado para vestir no Natal, as nossas fotos e os brinquedos que a acompanharam no hospital, o corpo da nossa Leonor foi no dia em que fazia 4 meses.

A Leonor foi e será sempre a nossa Brave, a estrela no céu a quem diremos boa noite todos os dias, o anjo do amor, que a todos uniu e ensinou a sorrir. Sempre. Até na dor e da adversidade.

Obrigada minha querida Joana pelo ser especial que és e pela ajuda que nos estás a dar
Obrigada minha querida Leonor pelo amor que me fizeste e fazes sentir

6 comentários:

  1. Talvez o teu melhor texto. Um beijo grande, muito grande...

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  2. Mãe Coragem,

    Não nos conhecemos.

    Fui tomando conhecimento da luta da Leonor, e vossa, através do Facebook do Jimmy (criatura que conheci há alguns anos e por quem tenho grande estima e consideração - coisa que suspeito que ele desconheça).

    A luta da Leonor tocou-me muito. A partida dela ainda mais. Talvez por ter uma filha com quase 3 anos… mas certamente pelos sorrisos que pude ver da pequena guerreira em plena luta. Tocou-me mais do que imaginava.

    Fui acompanhando as notícias publicadas pelo Jimmy e fui, assim, partilhando à distância da luta da Leonor, da vossa esperança e, finalmente, da vossa dor. Vou partilhando agora, em grandes golfadas, da tua coragem e da lição da passagem da Leonor por cá. E dou comigo a prometer-me também dar sentido ao que aconteceu.

    Bem hajas pelo teu exemplo.

    Abreijos a todos,
    Carlos

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  3. Digo-te aquilo que já me disseste algumas vezes a brincar, mas que hoje eu te digo muito a sério: "Quando crescer quero ser como tu!". Um beijo muito grande.

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  4. Amiga, não consigo parar de chorar. É um texto triste, mas muito lindo. A tua Leonor, o anjo que subiu ao céu, está neste momento a sorrir para ti. Tudo isto é um mistério muito grande, talvez um dia venhamos a compreendê-lo. Um beijo muito grande no teu coração, do Miguel e da Joana e um abraço apertado.

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