domingo, 20 de janeiro de 2013

Realidade paralela


É assim que nos sentimos. Temos estado com amigos do coração e tentado voltar ao dia-a-dia o mais normal possível, pois acima de tudo continuamos a ter a outra luz dos nossos olhos. O sorriso da Joana, os seus beijos, as suas birras e as suas traquinices são o que nos liga à terra. 
Mas há momentos em que a saudade bate. A saudade do cheiro, do toque, do sorriso da nossa filha mais nova. A nossa pirralhinha que tanto desejámos e que agora tantas saudades nos faz sentir. É incrível pensar que ela aqui não está. É surreal pensar que foi um vírus de uma bronquiolite que fez com o que o seu coração ficasse assim e há uma semana decidisse não aguentar mais. 
É inimaginável sentir que nunca mais veremos o seu sorriso. Que não a veremos crescer. Aprender as primeiras palavras. Cuspir as primeiras colheres de sopa. Fazer tantas coisas iguais à Joana e outras tantas que a fariam diferente. A nossa ruivinha de sorriso aberto. É impossível fugir das perguntas que nos assolam  o pensamento de como ela seria, o que faria. Temos a certeza de que iria continuar a sorrir para tudo e para todos. Continuaria a brindar e a marcar quem a veria com o seu sorriso. O mesmo que marcou os médicos e as enfermeiras com quem se cruzou. Recuo no tempo e lembro-me dela sedada e entubada em Santa Maria. De imediato, lembro-me do sorriso que espalhou e que desde cedo usou para encher o meu coração. O mesmo sorriso de que agora sinto falta mil vezes ao dia. O mesmo sorriso que só me resta guardar na memória (é o que repito para mim mil vezes). Perder um filho é sem dúvida uma das piores coisas da vida. Sei do que falo pois já perdi avô, pai, amigos e vi muitos amigos perder famíliares. Nós perdemos a vida da nossa Leonor.
A sua alma sei-a comigo e é isso que me ajuda quando saio da nossa realidade paralela e me obrigo a mentalizar de que a minha vida mudou para sempre e terá sempre um vazio, impossível de preencher. Por isso mesmo, eram 2h30m da passada madrugada e eu e o pai, tal como lhe prometi (à Leonor), estávamos no Jezebel e fizemos um brinde em sua honra. Fiéis a nós mesmos. Unidos nesta batalha de vencer a maior tristeza das nossas vidas.
Com a alma dorida, respiramos fundo e sorrimos. Tal como ela nos sorri de onde está e nos sorrirá sempre. 

4 comentários:

  1. O coração de mãe escreveu estas palavras.
    Nada se pode dizer para minimizar a dor...

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  2. Que texto tão bonito Irina!
    Apesar de em circunstancias muito diferentes, percebo bem o que dizes com "realidade paralela". Um acordar de manha meio desorientado, sem perceber muito bem em que "mundo" estamos.
    A ninocas cativou tudo e todos com o seu sorriso lindo. Ainda hoje tenho bem presente o seu ar maroto a pedir colo e o sorriso a retribuir quando conseguia o que pretendia. :)
    Um beijinho grande e que nunca percam o sorriso que e tão vosso (dos quatro)

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    1. Tu és muito mais bonita do que este texto, por isso, ela te escolheu como madrinha e sempre te sorriu daquela maneira.

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