sábado, 9 de fevereiro de 2013

Faz hoje 4 semanas...

Que parte de mim partiu.
Que vivi o impensável. O indesejável. O que me faz ainda reviver o que aconteceu há quase um mês.
É das coisas mais dificeis que estou a viver. Esquecer a respiração ofegante, os valores elevados no ecrã das máquinas, a cara da médica, da enfermeira, dos meus familiares que estiveram comigo aquelas duas horas terriveis no Hospital Santa Cruz. Entre o chegar e o ser chamada pela médica que me pediu desculpa por não me poderem chamar antes e satisfazer o meu  pedido da Leonor partir nos meus braços. Tudo fizeram mas nada funcionou. A Leonor não quis. E, por muito que doa, foi melhor assim depois do que aconteceu há 4 semanas. A nossa pirralhinha seria uma criança presa num corpo doentissimo e sabe-se lá com que lesões.
Consegui tê-la nos meus braços. Parecia que dormia. Mas eu sabia que não. Estava ali o rosto sereno com que partiu e que sempre teve desde que nasceu. O rosto que nunca vou esquecer. Quis um último sorriso. Um último olhar. Mas já não podia.
Naquele momento já só as nossas almas se podiam tocar. Como todos os dias peço que se toquem.
Sei que esteve ali enquanto esteve ao meu colo. Enquanto lhe prometi dar sentido ao que aconteceu. Enquanto lhe pedia ajuda para entender e seguir em frente. Enquanto chorei com as madrinhas das minhas filhas, esta partida. Este momento que o meu querido marido, o amor da minha vida, viveu ao longe por telefone. A minha angústia era grande. A dele não consigo qualificar.
Senti que tinha de deixar ir a Leonor e coloquei-a de novo na cama. Disse adeus ao seu corpo que cresceu dentro do meu, com a certeza de que as nossas almas se podem tocar e reencontrar de novo.
Agradeci aos médicos. A frustração e impotência estampada no rosto deles nunca me sairá da memória, nem o seu profissionalismo e humanidade, me sairão do coração.
Sinto que teve de ser assim. Mas há momentos em que só isso não me chega. Preciso do meu bebé. Mas de imediato penso, que o meu bebé teve de ir. Foi o melhor para ele. Não posso ser egoísta. Tenho de aceitar que o que aconteceu foi o melhor para a Leonor. Que teve de ser e que a resposta virá com o tempo.
O tempo que continuo a desejar que voe. O mesmo tempo que aproveito agora ainda mais com a minha filha furacão. Que encho de mimos que recebo de volta, sempre com um sorriso malandro e um olhar ternurento. A minha peste doce como lhe chamo. A minha pirralha. A minha pirralhinha, a minha segunda filha, vive e viverá para sempre no meu coração. Serei sempre mãe de duas filhas lindas. Da mais nova, tenho de matar os pensamentos de como se tornaria, do que faria na vida, de como seria. Guardo o seu ar espetivado que desde sempre teve, o seu olhar doce e o seu sorriso que marcou tudo e todos.
Obrigada meu amor pela luz que me trouxeste.
Obrigada minha peste doce por me aqueceres o coração.

16 comentários:

  1. Ai... nem sei o que dizer, qualquer palavra se torna vã e pequena diante tal sofrimento. Deixo apenas um abraço e um beijo de admiração profunda

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  2. Apenas deixo um carinho e os votos de que consigam ultrapassar este sofrimento...

    MJ

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  3. Gostava de escrever qualquer coisa mas perante isto nem sei bem o quê... Tudo parece vão e pouco... Coragem, muita coragem e um grande colo para todos...

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  4. Fiquei de lágrimas nos olhos. Nem sei o que escrever, só quem passa por isso é que sabe a dimensão do sentimento, nós só podemos imaginar, e só isso, já é devastador. Desejo muita força. Muitos beijinhos!

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  5. Um abraço grande, enorme para si. Hoje o meu colo é seu.

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  6. Não sei descrever o que sinto neste momento, após ler as suas palavras. Deixo o meu abraço de mãe, e a minha profunda admiração, pela forma luminosa, de como está a lidar com a situação.

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  7. Sem palavras. Para tamanha dor e para a forma como parece estar a lidar com ela. Sem palavras para dizer seja o que for. Um beijinho grande

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