terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Há um mês...

... por esta hora, preparava-me para deixar a Leonor e vir a casa durante umas horas. Em três semanas de hospital era a primeira vez que não poderia passar a noite com ela nos Cuidados Intensivos. Os batimentos estavam acelerados, mas já estava sem medicação há umas horas, mas começava a aceitar já soro e algum leite e o mau estar parecia ter diminuido. Fiz-lhe festinhas. Adormecia-a e acalmei-a. Não queria sair dali sem a certeza de que estava mais serena. Pedi para deixar uma peça de roupa com o meu cheiro e assim fiz. Tirei o top que tinha junto ao corpo e coloquei-lho junto à cara como se fosse a fralda. Fiz-lhe festinhas e dei-lhe beijinhos. Saí eram 23h45 para que a médica pudesse colocar-lhe a sonda e recomeçarem a medicação. À porta do hospital já me esperavam a minha querida Vânia e o meu querido Pedro para me trazerem a casa.
Com parte de mim na unidade dos cuidados intensivos saí ao telefone com o meu marido, explicando que tudo parecia melhor e que poderia ligar durante a noite as vezes que quisesse (foi o que me disseram).
Vim para casa com os meus queridos amigos do coração. Atordoada. Cansada. Nervosa.
Cheguei a casa e falei com o meu marido e cunhados via skype.
A minha querida sogra disse que me ia preparar comida. Pedi só um chá e uma torrada. Sentia-me num túnel sem fim.
Às perguntas que me faziam eu respondia apenas que ela nao estava tão mal como em Dezembro, mas que o meu receio era que acontecesse o que sempre nos disseram no hospital de Santa Maria: o coração pode cansar-se e dizer que não quer mais.
Mal sabia eu que já era isto que estava a acontecer.
Fiz mais um curto telefonema e ouvi o meu telemovel a vibrar. O coração apertou-se. Senti. Corri a atende-lo. Era a enfermeira a dizer para eu ir que os médicos estavam de volta dela. Encostei-me à parede. A minha pirralha Joana dormia ali mesmo ao lado no sofá da sala. A minha sogra chamou o meu tio para me levar. Ainda pensei em conduzir, mas realizei que não ia conseguir. Liguei à minha prima e pedi-lhe para ir.  Liguei ao meu marido. de saída, a minha sogra abraçou-me dizendo que tudo ia correr bem.
- Se for o destino só temos de conseguir aceitar - soltei.
Desci e liguei à minha mana do coração que me perguntou se eu queria que ela fosse ter comigo. Respondi-lhe que sim. Sentia que o pior ia acontecer. Ela disse-me que não. Eu disse que era isso que sentia. Liguei ao meu irmão e comecei a subir a rua a pé, por não conseguir estar parada até o meu tio surgir.
Entrei no carro do meu tio que me levou ao hospital.
Pelo caminho só pedia à minha filhota que não partisse, mas o meu coração de mãe dizia-me o contrário.
Cheguei ao hospital e corri. Pedi para me abrirem caminho sem ver a minha prima do coração que já lá estava. Corri directa aos cuidados intensivos onde me bloquearam a entrada pedi para deixarem a Leonor partir nos meus braços.
Voltei atrás. Já lá estavam mais tios e o senhor da recepção abriu-nos uma sala. Os minutos passavam e a certeza apoderava-se de mim.
Chegou a minha mana do coração. Chorei e com um murro que lhe dei no peito disse-lhe que odiava os meus feelings.
Fomos para a sala e esperámos. Ainda nos rimos. Temos esta capacidade maravilhosa de tentar desanuviar com parvoices e não arrancar cabelos nem entrar em histerimos.
Surgiu a médica que me disse que estavam lá todos os médicos a tentar salvar a Leonor e um outro menino.
Refiz o pedido e ela lá foi decidida a não deixar partir a minha bebé.
Tomei um calmante e comi um kinder (tecnica que usei nos hospitais contra as quebras de açúcar ensinada pela minha querida prima Rita).
Ficámos ali à espera.
Vi os minutos a passar e o meu coração continuava a dizer o que a minha cabeça não queria assumir.
Perto das 3h da manhã do dia 13 de Janeiro, a médica voltou. Pediu-me desculpa por não me terem conseguido chamar e aconchegando-me no seu braço disse-me que não tinham conseguido.
Voltei-me um pouco para trás e acenei que não aos que ali estavam comigo. Sei que não perceberam. Na verdade, ninguém queria esta notícia.
A médica explicou-me tudo o que fizeram e que não conseguiram.
E levaram-me a ver o meu anjo. Peguei-lhe ao colo, sentei-me e beijei-lhe a testa. Dormia.
As lágrimas percorreram-me o rosto. Sei que nada acontece por acaso. Pensei no meu querido marido ao longe sem saber ainda. Sem poder estar ali porque é de uma grandez atroz  por ter ido lutar pelo futuro da nossa família. Pensei em como ia explicar à Joana que a irmã era uma estrelinha e não voltava. Preocupação minha, pois a Joana é muito mais evoluida do que eu e tem sido a minha grande bengala nesta caminhada dura, que teima, mas não pode ser coxa.
Falei com a minha pirralhinha. A minha Leonor. Encostei-a ao meu peito que ainda tinha leite e pedi-lhe que me ajudasse a perceber o porquê e a dar significado a isto.
Perguntaram quem queria chamar. Disse a minha prima e a minha melhor amiga. Entraram com o coração grande que têm e choraram comigo. Celebrámos por palavras o ser fantástico que ela foi em tão pouco tempo e eu disse que as minhas filhas não podiam ter melhores madrinhas.
Rita e Vânia, não tinha dúvidas de que vocês são seres fenomenais. Depois disto, não tenho palavras. Apenas o meu eterno amor e o meu eterno obrigada por me ajudarem a viver o momento mais dificil da minha vida. Por estarem ao meu lado quando dei a notícia ao meu querido marido. Por me ajudarem em tudo o que foi preciso.Há pessoas que entram nas nossas vidas porque temos muito para aprender com elas e eu tenho aprendido muito com as duas.
Um mês depois do destino se cumprir, continuo a falar com a minha pirralhinha (o meu pai morreu há 18 anos e às vezes ainda falo com ele). Digo-lhe que tenho saudades, mas que vou sorrir e não vou chorar e peço-lhe o mesmo que pedi na última vez que a senti junto ao meu corpo: a serenidade para perceber o porquê de ter sido escolhida para viver isto e a capacidade de dar significado à sua morte.
Aquece-me o coração recordar o seu olhar dengoso e maroto e o seu sorriso capaz de iluminar este e todos os outros mundos.
Ontem, Hoje e Sempre Obrigada Leonor
(este nao é um queixume, é apenas um desabafar da minha alma de mãe)

20 comentários:

  1. Descobri ontem à noite aqui os últimos acontecimentos que lhe ensombraram os dias...Por acaso num momento em que há alguém perto de mim, muito mais "crescida", que luta pela vida... E só posso deixar aqui um abraço virtual, com tanta intensidade como dou, sempre que posso, a essa amiga... E penso como é possível ir buscar tantas forças em certos momentos da vida!

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    1. Um beijinho grande e muita força para a sua amiga. Que ela ganhe essa batalha. Torço por isso.

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  2. Irina tenho partilhado consigo lágrimas e lágrimas... tem sido um exemplo brutal nestes meus dias e mesmo longe quero apenas agradecer o seu testemunho.

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  3. Irina, ja antes tinhamos falado por aqui, na altura não me apresentei, mas o meu nome é Estela e tenho seguido todas as suas palavras. A sua capacidade de expressão é incrivel. Tenho 3 filhos e a mais pequena tem uma idade proxima da Leonor, sinto muito daquilo que descreve e muitos momentos dou por mim a pensar em di, na sua historia e nos seus relatos e envio-lhe força e esperança no amanha. O vazio esse nunca vai desaparecer mas tenho a certeza que tem que haver uma explicação para alem do que vemos e sabemos. Nada acontece por acaso e nestes casos costumo utilizar uma expressa de uma musica do Luís represas: só Deus tem os que mais ama,não resolve a dor nem o vazio mas conforta mais o coração. Envio-lhe um a abraço muito apertado e cheio de esperança no amanhã. Mil beijos

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    1. Muito obrigada querida Estela por ajudar a aquecer o meu coração

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  4. Fico com as lágrimas no olhos e o coração pequenino sempre que te leio. Penso em ti várias vezes e em diferentes situações, gostava de poder dizer alguma coisa, mas fico com um nó na garganta e tenho consciência que nada disser pode a preencher esse vazio monumental.Eu já sabia que eras uma mulher cheia de força, uma Zé (a nossa, a que criamos) cheia de coragem que encara a vida sem medos. Hoje e a cada post, fico com a noção de que és uma pessoa, um ser humano 'enorme' .
    Um beijinho muito grande e um abraço apertado

    Andreia

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  5. Irina,

    Li o teu post, chorei com o teu post (bem como com os anteriores) enchi-me de coragem e decidi escrever umas palavras.
    Desde que soube o que aconteceu que tenho pensado muito em vocês. Encontrei-te há uns dias no elevador do Cascaishooping e fiquei sem reação, da minha boca pareceram-me sair palavras que formavam frases sem sentido… não sabia o que te dizer ou o que fazer. A verdade é que temia esse encontro. Sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde, mas não sabia o que dizer, a ti ou ao Miguel. Disparates de uma cabeça tonta.
    Tenho acompanhado os teus posts e a cada post que leio vos acho um exemplo de amor e coragem como nunca vi igual. De certeza que as vossas filhas vos escolheram por isso. Eu não sou muito crente, mas a vida tem-me ensinado que nada acontece por acaso, ou pelo menos é o que eu gosto de acreditar. Os meus filhos têm-me ensinado isso.
    Quando me zango com a minha filha e ela sente que me irritou de verdade diz-me muitas vezes com um sorriso dengoso "Mãe, fica feliz!" e, como se de uns pozinhos mágicos se tratassem, a zanga atenua e a felicidade vem ao de cima (muitas vezes tenho de fazer um esforço muito grande para fingir que ainda estou zangada). Se eu pudesse "guardar" esses pozinhos mágicos dentro de um frasco, fazia-o, guardava-os e partilhava-os com vocês, para vos ajudar a "ficarem felizes". Apesar de não o poder fazer, tenho a certeza que a vossa pequena grande Leonor, esteja onde estiver, vos está a enviar os seus pozinhos mágicos para vos ajudar neste momento tão doloroso. De certeza que ela, através da mana, vos ajudará a dar sentido ao que aconteceu e a serem felizes os quatro.

    Deixo-te (vos) aqui um beijinho e um abraço apertado e muito sentido (que não dei quando podia ter dado).

    Ana Teresa

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    1. Querida Ana,

      Lembro-me bem do nosso encontro, mas não disseste nada sem sentido. Esta nossa história mexe com todos os que têm filhos. Às vezes receio escrever/desabafar por causa de chocar e/ou amedrontar. Mas as mensagens que me chegam é de apoio e pedem me para cntinuar, por isso faço-o.
      A tua filhota é sem dúvida especial com essa frase. Os miúdos são magnificos. A Joana e a Leonor são as nossas riquezas. E sim, chegam pózinhos mágicos de vez em quando que nos ajudam a sorrir cada vez mais e a habituarmo-nos ao vazio que ficou. Um beijinho muito grande e o abraço foi sentido, apesar de não ser dado fisicamente.

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  6. Olá Irina, passei para lhe deixar um abraço apertado. Beijinhos Estela

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    1. Obrigada e um grande beijinho Estela. Não tenho escrito pois estou com uma inflamação nos olhos.

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  7. Irina

    as suas rapidas melhoras...beijinho Estela

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  8. Gosto muito de te ler. Não podes imaginar como através de ti a tua Leonor é uma força para mim, e não pelo que a vossa história tem de triste mas sobretudo pelo que o vosso caminho, aqui ou algures num lugar melhor, tem de mágico. O amor que tu transmites é absolutamente inspirador para qualquer mãe, para qualquer mulher, para qualquer amiga. Não te conheço bem, só te conheço através de uma amiga (tão especial), mas com este pedacinho tão enorme que partilhas aqui atrevo-me a dizer-te obrigada. Obrigada por nos dares a conhecer um amor tão único e especial. Obrigada por uma estrela tão mágica. O céu tornou-se mais brilhante. Um abraço daqueles bem apertados.
    Julieta

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    1. Alguém especial nos faz estar em contacto. Tu tb és especial e eu adoro-te ler-te. Os nossos filhos, neste caso, filhas, cada uma, por si, ensinam-nos à sua maneira. É esta maravilha fantásticas, inexplicável e impagavel que é ser mãe.

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  9. O testemunho mais comovente que li em toda a minha vida (sou adolescente), e a minha geração o que todos pensamos é: "Supostamente, a lei da vida é os pais partirem primeiro". E deste vez a vida foi madrasta consigo, essa pequena estrela que esteve consigo durante 3 meses, veio talvez ensinar-lhe uma lição de vida que ninguém mais à poderia ensinar-lhe. Os filhos é um empréstimo de Deus, para lições de vida incríveis. É doloroso pensar na sua dor e no que sentiu naquele momento.
    O vazio permanecerá para sempre, apenas a sua pestinha, como lhe chama, vai ajuda-la nesse vazio permanente.

    (Estive muito tempo a pensar se lhe escreveria isto, sigo-a a cerca de 2 meses, sem antes comentar)

    Um abraço doce e sentido,
    Sara.

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  10. Descobri hoje o seu blog e já estou apaixonada!!! Que doce e maravilhosa descoberta!!!!
    Um beijinho muito grande e já sou seguidora, claro!!!!

    PAULA FERRINHO

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  11. Só hoje descobri este cantinho por sugestão da minha mulher.

    Nem sabe como consegui relacionar o que está neste post com o que aconteceu connosco.

    É escusado dizer algo como "Força" ou algo do género. A perda de uma filha é algo demasiado traumática para ser ultrapassada apenas com Força. Há qualquer coisa de transcendente neste "vazio preenchido". Não a vemos mas sentimos. Não fala mas responde.

    E nessas alturas sabemos que está tudo bem com ela. Somos nós quem está a sofrer com saudades. Saudades de um corpo quando a alma está mais presente junto a nós do que nunca esteve antes.

    Um beijo enorme.
    AF

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