domingo, 17 de novembro de 2013

Faz hoje um ano...

... que, de madrugada, com a Leonor ao colo tremi dos pés à cabeça, como nunca tinha tremido.
A vida surpreendeu-nos com a partida súbita e demasiado prematura do nosso tio Raul. A família ficou sem chão. A minha prima, sua filha, ficou sem o pai e sem o melhor amigo. O meu querido Miguel perdeu o tio, segundo pai. As minhas filhas perderam um tio-avô. Os meus tios o irmão mais velho. Eu perdi um tio emprestado que implicava comigo, por gostar de mim.
Os nossos corações ficaram pequenos e espremidos de dor, sem ainda saber o que nos esperava. Que ele se transformaria no tio-avô anjo da nossa pequenina Leonor.
É nestes momentos da vida que nos sentimos pequenos. Meras personagens de um guião que alguém escreve a seu belo prazer. Umas vezes fazendo-nos a vontade. Outras arrancando-nos do nosso pequeno mundo, do nosso conforto, confrontando-nos com o poder da sua atitude magnânime.
Desde cedo que me questiono o que é esta vida e o que é que vimos aqui fazer.
Questionei-me ainda com mais força aterrada com a morte do Raul.
Voltei a questionar-me (e volto quase todos os dias) com a partida da minha Leonor.
O meu coração diz-me que há uma razão para tudo. A experiência de vida também. Não existem acasos na vida. Tenho a certeza.
E com esta certeza ponho-me a pensar e a reviver os sentimentos de há um ano. É inacreditável como uma parte do nosso mundo desapareceu. Porquê? Porque a vida tem os seus mistérios.
E para que é que serve a vida? Para vivermos de coração e braços abertos. Sem medos. Sem conceitos. Permitirmos ser nós mesmos, sem pensar no que os outros querem que sejamos ou que digamos. Temos de ser verdadeiros connosco próprios. Assumir os nossos medos, as nossas dores, a nossa realidade.
E para quê?
Para com tudo isto escrevermos a história da nossa vida deixando a nossa marca.
O meu tio Raul deixou-nos as "provocações", as gargalhadas, o seu grande coração. E deixou-nos também uma prima linda. Que de menina se tornou mulher. Que com a dor se revelou um ser ainda mais fantástico. A mulher para a qual ainda olhamos, com o mesmo olhar do pai dela, o de que continua a ser menina. A nossa menina. Aquela a quem colocaremos a asa por cima, sempre que for preciso.
Resumo? A vida é misteriosa. Quando chegou a hora do Raul escrever a sua última linha, iniciou-se uma nova página onde todos nós começámos a escrever e a olhar a vida com outros olhos.
Hoje é um dia triste. Mas só é triste porque o Raul deixou a sua marca. E isso é a maior razão da nossa existência. Mais do que o dinheiro, a imagem... a nossa essência. Aquela que mesmo depois de terminada a vida, fica para a eternidade.Deixar um pouco de nós, em todos aqueles que amamos e com quem nos cruzamos.
Obrigada Raul por ter deixado um pouco de si em mim, e em todos nós.

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