segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A Dor

Acho que a primeira vez, na vida, que me apercebi de que havia algo que nos magoava e fazia chorar e sofrer, foi no dia em que soubemos que o meu pai tinha cancro.
Eu devia ter 9/10 anos.
Não esqueço esse dia.
Nem a roupa que tinha vestida.
A minha mãe não era de nos proteger das más notícias, e por isso acho que foi aí.
Talvez o  facto dela ter sido assim, desde sempre, também me ajudou a ganhar calo para tudo o que vivi no último ano.
Talvez seja a este seu modo de ser, que não reconheço e não valido com a minha filha, que lhe devo o meu espírito de luta.
Conheci a dor mais de perto à medida que a doença do meu pai foi aumentando e levando-o de nós. Foram sete anos.
Um ano antes dele partir, senti pela primeira vez, a dor enorme de perder alguém: o meu avô.
O meu eterno carequinha.
Consigo viajar no tempo e lembrar-me do quanto me doeu por dentro.
Um ano depois partiu o meu pai. Uma morte já esperada, pelo meio de tanto sofrimento. Mas a mesma dor. Desta vez acompanhada do sentido de que ele tinha ganho paz e teria descanso, e de que eu era a irmã mais velha de um miúdo que tinha acabado de ficar sem pai.
Já tinha quase 18 anos.
Já via a vida com outros olhos.
Senti dor.
Revoltei-me com o sofrimento.
Nunca com a morte.
Não sei porquê, mas sempre a soube certa.
Nunca a temi e só a temo se for precoce, porque sou mãe.
No passado dia 23 de Agosto, tive de contar pelos dedos, quantos anos faria o meu pai. Seriam 72! Faz agora em Outubro 20 anos que partiu.
A dor passou. Ficou a saudade do que não se viveu. Ele adoeceu eu era ainda uma garota. As memórias que guardo são muito poucas.
A dor da perda essa ficou já lá atrás. Algures no tempo.
Os anos foram passando, eu fui crescendo, a vida foi acontecendo e a dor tornou-se uma parceira.
Porque é mesmo isso que ela é.
Temos dor porque alguém que nos é querido morre, mas também temos dor quando amamos e não somos correspondidos... até mesmo, quando aquele amigo que julgávamos ser do peito, não o é tanto.
À medida que a vida corre e a dor se torna um dado adquirido, no mais cedo ou mais tarde, temos de aprender a lidar e a crescer com ela.
Caso contrário, resta-nos a mágoa e tudo o que de mau vem com ela.

Há um ano e meio que ganhei uma dor para a vida.
Uma dor que me obriguei a resolver dentro de mim, por ter outra filha, família e amigos...
A verdade é que senão conhecêssemos a dor como reconheceríamos a felicidade? O êxtase de um momento feliz?
Por isso gosto tanto desta frase que me surgiu ontem na net,  me fez pensar e vir aqui escrever:
- Dor não tenho medo de ti!


2 comentários:

  1. A dor de não poder partilhar a alegria de ter sido mãe com a minha mãe é continua... cada sorriso do meu filhote, cada conquista ...
    Fico feliz por saber que estás a conseguir mudar! <3 Dá-me tempo...

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    1. Minha querida, não preciso dar te tempo.
      Sabes que foste das primeiras pessoas na vida que me impressionaram com a sua maneira de ser e o seu sorriso?
      A tua mãe está mais perto do que nunca. Leva a mão ao coração fecha os olhos e verás que a sentes.
      Não tens o atlântico a separa vos! As almas podem tocar se. Acredita.
      Gosto muito de ti e admiro te mto

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